domingo, 7 de maio de 2017

Tenho de ir mãe… Tenho de ir…

Tenho de ir mãe, tenho de ir… preparei-te para este momento, avisei-te vezes sem conta, disse quando, disse como, fechei a porta e saí. Nunca acreditaste que o fizesse, nunca acreditaste que esse dia chegaria, dentro de ti existiu sempre uma réstia de esperança que seria sempre o teu menino, que seria sempre o teu companheiro, que ficaria “preso” no teu porto seguro.
Tenho de ir mãe, tenho de ir… o silêncio consome-te e é apenas quebrado pelas telenovelas e “Portugais em Festa”, olhas para o telemóvel na esperança que toque e cada dia que passa recorda-te o que tiveste e agora não tens… Vagueias pela casa fixando o teu olhar em recordações silenciosas de um passado que devia ser presente, mas está ausente…
Tenho de ir mãe, tenho de ir… preciso de queimar o jantar, dobrar mal a roupa, limpar a casa de banho e apreciar a ausência de cotão pelo chão. Preciso de pagar as contas, de usar as calças e sair das saias, preciso ser homem e deixar o menino…
Tenho de ir mãe, tenho de ir… olharei para casa como a minha casa, olharei para o quarto como o meu quarto, olharei para a almofada como a minha almofada, olharei e lembrarei o que sonhei, pensei, imaginei e que agora é mãe, agora é….
Tenho de ir mãe, tenho de ir… voltarei diferente, mais seguro, mais forte, mais marido, mais pai. Serei outro e serei o mesmo… Terei rugas, cabelos brancos, terei 30, 40, 50, mas para ti serei sempre aquele magricela de acne salpicado, que te perguntava se a roupa ficava bem e te dizia que não vinha tarde…
Tenho de ir mãe, tenho de ir… recorda o passado, vive o presente e abraça o futuro, ensina-me uma última vez mãe, ensina-me… ensina-me a deixá-la ir, ensina-me… pois um dia também eu tenho de a ver partir, também eu tenho de a ver bater a porta e senti-la fugir…
Tenho de ir mãe, tenho de ir…
Preciso de ir mãe, preciso de ir…
Deixa-me ir mãe… deixa-me ir…
Dedicado a todas as mães que nos deixaram ir…
Alexandre Henriques

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